sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

ternuras de deus

milagre é acontecimento bruto
nunca chega sem arrombar alguma entrada
romper cadeados e correntes
o ar adensa-se
mulheres ancestrais, mães e avós dançam ao meu redor
animais selvagens protegendo a casa
mistério bruto bruto
está na panela onde pus pimenta rosa porque o que estava lá cozinhando
assim me ordenou
deixei borbulhando em fogo baixo o feitiço perfumado
cheiros que me determinam desde a infância passada ao redor da avó
seus tachos e tabuleiros
liturgias acontecendo uma após a outra
alegrias cotidianas e simples como o cheiro de doce-de-leite botando ordem
na casa na vida
este dezembro é o primeiro sem minha avó
vou temperar o cabrito e assar com ela ao lado
me ensinando
fazendo graça 
só de pensar o choro vem, não brigo, deixo a tristeza se derramar
misturo as lágrimas no molho e no fim consigo um sabor de alegria poderoso

é tudo assim bruto e misturado

foi por isso que no domingo
acordei cheia de vertigens
e decidi curar meu medo de altura tentando chegar ao cume
tomei banho, lavei os cabelos que secaram cheios de cachos
brilho nos lábios, rímel preto nos cílios curvados
brincos compridos 
vestido curto de seda me acariciando o corpo
sandálias de salto alto que me faziam mais mulher que menina
foi um milagre bruto bruto quando encostei a ponta do dedo no céu
e deus pegou de volta todo o medo que tinha me dado de precipícios.

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