domingo, 19 de dezembro de 2010

giramor

lolilosa dizia o velho preto
enchendo a boca ao dizer a palavra rosa
lolicheirosa
lolilosa
a palavra cantava sozinha
eu ouvia seu perfume adocicado
cheiro bom e quente
novo signo de amor
luz suave clareando caminhos
lolilosa é o que vou pedir
à estrela
ao mar
às deusas mães ancestrais.


o verso exu

acordei hoje sem asas
outra vez a dor sem cabimento
não cabendo mais em mim
maldisse a vida
odiando por igual os adjetivos misturados na memória
queria implodir estas prisões
vomitá-las num jorro forte e quente.

puta presa sem cigarros
arrastei a solidão atada aos pés por grossa corrente
chorei os adjetivos porque não me servem
adubam culpas e vaidades vãs e tombam mortos
antes de encostar no sem palavras onde sou
mas foi sob o peso destes defuntos
tentada pelo diabo a não ser quem sou
que quis tanto apagar o verso.

não o fiz
meu destino de ser alada não deixou
mesmo cansada
de cara molhada
não voltei pra conspurcar a poesia já solta no mundo.

o verso traste é alguma liberdade
belo no simples existir pra além do repúdio que lhe dediquei
brincadeira de avessos
o verso maldito numa face tem do outro lado
a cara de verso salvador.

corrente rompida
aceito que a vida é assombro
lavo corpo e boca de cheiro e gosto que não quero
e vou dormir abraçada ao verso
aceitando que me encoste me embale
sonharei  nesta noite coisas obscuras
admiráveis
sobre uma vaca de asas num pasto feito de palavras
e mais não conto.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

maria sem vergonha

curada de precipícios
perdi medos e vergonhas
não vigio mais minhas palavras
nem a fonte onde nascem
contas,  me basta o compasso do que ganho e do que gasto
de resto, quero é deixar a vida ser
me deixar ser
feito quando o homem sério e bonito
chegando de viagem longa em país distante
enormidades de trabalho pela frente
escreveu: 
            
              “Acabei de chegar e me deitar.
               Estou bem e com saudades do meu bem”

me deixei ser o bem dele e a falta que ele sentia
as palavras me abraçaram e beijaram
por tão pouco dormi amada
abri a porta do sonho
e acordei grávida
mistério que não entendo
nem este nem o que veio depois
mas deixo ser
a vida agora é gerar e parir.

e sem vergonha nem medo
até à beira de precipícios ando bonita
exibindo minha barriga
balançando o quadril
os peitos empinados
fêmea prenhe e no cio
alternando choro e riso
cheia das vontades todas
atiço os homens pelo caminho
mas beijar outro não beijo
não enquanto tiver na boca
o gosto de homem da minha vida que o homem
sério e bonito me deixou.



ternuras de deus

milagre é acontecimento bruto
nunca chega sem arrombar alguma entrada
romper cadeados e correntes
o ar adensa-se
mulheres ancestrais, mães e avós dançam ao meu redor
animais selvagens protegendo a casa
mistério bruto bruto
está na panela onde pus pimenta rosa porque o que estava lá cozinhando
assim me ordenou
deixei borbulhando em fogo baixo o feitiço perfumado
cheiros que me determinam desde a infância passada ao redor da avó
seus tachos e tabuleiros
liturgias acontecendo uma após a outra
alegrias cotidianas e simples como o cheiro de doce-de-leite botando ordem
na casa na vida
este dezembro é o primeiro sem minha avó
vou temperar o cabrito e assar com ela ao lado
me ensinando
fazendo graça 
só de pensar o choro vem, não brigo, deixo a tristeza se derramar
misturo as lágrimas no molho e no fim consigo um sabor de alegria poderoso

é tudo assim bruto e misturado

foi por isso que no domingo
acordei cheia de vertigens
e decidi curar meu medo de altura tentando chegar ao cume
tomei banho, lavei os cabelos que secaram cheios de cachos
brilho nos lábios, rímel preto nos cílios curvados
brincos compridos 
vestido curto de seda me acariciando o corpo
sandálias de salto alto que me faziam mais mulher que menina
foi um milagre bruto bruto quando encostei a ponta do dedo no céu
e deus pegou de volta todo o medo que tinha me dado de precipícios.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Gato Preto

brotam flores e espinheiros
há uma lua cheia num céu de negrume e pontos de luz
nas casas os casos de todo dia
no caso a casa vazia
a moça insone sentia lembranças
tinha era muita fome
há tempos que só comia as bobagens que escrevia.

de repente! um gato preto com garras afiadas
                         salta
                         no meio! bem no meio! do tal palavreado de amor.

a sintaxe que sorria mordiscando o lábio
abriu esganiçada a boca
barulho miados gritos
a fera tomada por ira investiu 
                                             garras afiadas sobre os versos
num golpe! na hora!
                bem na hora em que
                                         eles cruzavam
            sensualmente
                                                     uma perna
      sobre
                                                               a outra

bicho brabo arranhando ritmo 
asperezas dor
das palavras escorria sangue 
e súbito! 
               a criatura parou.

Espichou o rabo, erguendo-o  em curva sobre o corpo à moda dos gatos
e saiu de fininho
com
        delicadas
                          patas
                                     pisando
                                                     o
                                                        defunto
                                                                        estraçalhado
                                                                                                  no chão.
           
Aproximou-se manso e senhor de si
fez no colo da moça recanto onde ronronando se aninhou.
Assim, enroscados adormeceram
sob a lua cheia sob o céu de negrume sob pontos de luz.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Erótica é a alma

Comecei a aprender segredos
coisas aterradoras
esconderijos n’alma
mundos inteiros guardados dentro 
antes bem antes das palavras
sabe a surpresa quem já nadou com tartaruga
ver aquele bicho deslizando leve na água é coisa que em terra
não se vislumbra
ver segredos dos outros é ver tartaruga na terra.

Mas há lágrimas
há de vez em quando o bem-vindo milagre
o segredo de uma pessoa pisca paro o segredo da outra
uma conversa entre segredos e de silêncios
os segredos se vêem, se tocam, nadam juntos
coisa melhor não há,
de tão bom, pode dar susto, até pavor
sentir seus esconderijos recebendo visita
visitar esconderijos dos outros
é preciso sabedoria pra não atrapalhar com o pensamento
confiança em coisas que não são do reino da razão.

Quando ele me fazia perguntas daquela forma tão direta
tudo o que conseguíamos era tirar as tartarugas do mar e colocá-las em terra firme
se prestássemos atenção
sentiríamos nossos segredos nadando juntos e bastaria
hoje se ele me perguntasse de novo o que quero
responderia apenas
quero nossos segredos nadando juntos
enquanto eles se querem e se sabem
todo o resto é acessório
todo o resto se ajeita ao redor.

O bonito é que o corpo dá aviso
o corpo quer e pede o outro corpo
onde mora a alma que gosta de andar de mãos dadas com
a alma que mora no seu corpo.
Os corpos se desejam
se passeiam se brincam se vibram
os corpos se querem rir gozar desfalecer um no outro
tudo porque os segredos estão nadando juntos 
e os corpos apenas ecoando o mistério.

O amor?
Deixar os segredos
no centro
dançando trepando brincando crescendo
e o resto da vida ao redor.
Não há terreno mais fértil pro resto da vida florescer.