quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ôôôô pai, Ôôôô vó

        Poema esquisito                               
                               ( Adélia Prado)


Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo 
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem 
tenazes e duros,
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.