Comecei a aprender segredos
coisas aterradoras
esconderijos n’alma
mundos inteiros guardados dentro
antes bem antes das palavras
sabe a surpresa quem já nadou com tartaruga
ver aquele bicho deslizando leve na água é coisa que em terra
não se vislumbra
ver segredos dos outros é ver tartaruga na terra.
Mas há lágrimas
há de vez em quando o bem-vindo milagre
o segredo de uma pessoa pisca paro o segredo da outra
uma conversa entre segredos e de silêncios
os segredos se vêem, se tocam, nadam juntos
coisa melhor não há,
de tão bom, pode dar susto, até pavor
sentir seus esconderijos recebendo visita
visitar esconderijos dos outros
é preciso sabedoria pra não atrapalhar com o pensamento
confiança em coisas que não são do reino da razão.
Quando ele me fazia perguntas daquela forma tão direta
tudo o que conseguíamos era tirar as tartarugas do mar e colocá-las em terra firme
se prestássemos atenção
sentiríamos nossos segredos nadando juntos e bastaria
hoje se ele me perguntasse de novo o que quero
responderia apenas
quero nossos segredos nadando juntos
enquanto eles se querem e se sabem
todo o resto é acessório
todo o resto se ajeita ao redor.
O bonito é que o corpo dá aviso
o corpo quer e pede o outro corpo
onde mora a alma que gosta de andar de mãos dadas com
a alma que mora no seu corpo.
Os corpos se desejam
se passeiam se brincam se vibram
os corpos se querem rir gozar desfalecer um no outro
tudo porque os segredos estão nadando juntos
e os corpos apenas ecoando o mistério.
O amor?
Deixar os segredos
no centro
dançando trepando brincando crescendo
e o resto da vida ao redor.
Não há terreno mais fértil pro resto da vida florescer.