domingo, 19 de dezembro de 2010

o verso exu

acordei hoje sem asas
outra vez a dor sem cabimento
não cabendo mais em mim
maldisse a vida
odiando por igual os adjetivos misturados na memória
queria implodir estas prisões
vomitá-las num jorro forte e quente.

puta presa sem cigarros
arrastei a solidão atada aos pés por grossa corrente
chorei os adjetivos porque não me servem
adubam culpas e vaidades vãs e tombam mortos
antes de encostar no sem palavras onde sou
mas foi sob o peso destes defuntos
tentada pelo diabo a não ser quem sou
que quis tanto apagar o verso.

não o fiz
meu destino de ser alada não deixou
mesmo cansada
de cara molhada
não voltei pra conspurcar a poesia já solta no mundo.

o verso traste é alguma liberdade
belo no simples existir pra além do repúdio que lhe dediquei
brincadeira de avessos
o verso maldito numa face tem do outro lado
a cara de verso salvador.

corrente rompida
aceito que a vida é assombro
lavo corpo e boca de cheiro e gosto que não quero
e vou dormir abraçada ao verso
aceitando que me encoste me embale
sonharei  nesta noite coisas obscuras
admiráveis
sobre uma vaca de asas num pasto feito de palavras
e mais não conto.

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